
Relatos de adolescentes e famílias expõem avanço de depressão, automutilação e pensamentos suicidas; dados nacionais e de Mato Grosso apontam crescimento da demanda e agravamento dos casos entre jovens
“Eu achava que estava morrendo.” A frase, dita por uma adolescente em um recorte do documentário “Anatomia do Post”, relatando o que pensou durante uma crise de ansiedade, sintetiza uma realidade que tem se tornado cada vez mais comum entre jovens brasileiros.
O relato, acompanhado pelo desespero da mãe ao presenciar o sofrimento da filha, revela não um caso isolado, mas parte de um quadro mais amplo de deterioração da saúde mental na adolescência.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, divulgados pelo IBGE em 2024, confirmam a dimensão do problema. Entre estudantes de 13 a 17 anos, 30% afirmam sentir tristeza sempre ou na maioria das vezes. Entre as meninas, o índice sobe para 41%. Quase um em cada cinco adolescentes diz que a vida não faz sentido.
Em Mato Grosso, os números reforçam que essa realidade já se traduz em pressão concreta sobre o sistema de saúde. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz aponta que jovens são o grupo que mais busca atendimento em saúde mental no estado. Entre 2022 e 2024, foram mais de 151 mil atendimentos registrados pelo SUS.
O perfil desses atendimentos também chama atenção. A maioria ocorre por demanda espontânea — ou seja, quando o jovem procura ajuda em momentos de crise. Entre mulheres de 15 a 29 anos, esse índice chega a 65,6%. Entre os homens, 64,9%, indicando que o acesso ao cuidado muitas vezes acontece já em estágio de agravamento do sofrimento psíquico.
Os dados se tornam ainda mais preocupantes quando analisadas as internações. Em Mato Grosso, jovens de 25 a 29 anos apresentam a maior taxa por transtornos mentais: 460,3 casos a cada 100 mil habitantes. Entre homens, o índice é ainda mais elevado, chegando a 706,9 por 100 mil — quase o triplo do registrado entre mulheres.
Por trás dos números, há histórias marcadas por silêncio, autocobrança e isolamento. A jovem ouvida na reportagem descreve a perda progressiva de interesse pelas atividades que antes lhe davam prazer, além de pensamentos recorrentes de autodesvalorização. “Eu não me reconhecia mais”, relata. O sofrimento evoluiu para automutilação e tentativas de suicídio — episódios que, segundo a mãe, transformaram a rotina da família em meses de medo constante.
O ambiente escolar tem refletido essa mudança. Educadores relatam aumento de casos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e automutilação, especialmente entre meninas, pressionadas por padrões estéticos, exposição nas redes sociais e experiências de violência, incluindo assédio. Ao mesmo tempo, entre os meninos, o cenário se manifesta de outra forma: maior isolamento social, dificuldade de estabelecer vínculos e exposição a conteúdos de violência e misoginia no ambiente digital.
Especialistas apontam que a crise é resultado de uma combinação de fatores. Entre eles, transformações globais — como insegurança econômica e percepção de um futuro incerto — e características específicas do contexto brasileiro, como desigualdade social e violência. No entanto, há um elemento central que atravessa todos esses aspectos: o impacto das redes sociais.
A adolescência, antes vivida em espaços coletivos como ruas, escolas e atividades presenciais, migrou para o ambiente digital. Hoje, grande parte das interações ocorre dentro de quartos, mediadas por telas. Nesse cenário, algoritmos passam a ditar o conteúdo consumido, muitas vezes ampliando a exposição a padrões irreais de vida, discursos de ódio, desinformação e até conteúdos que incentivam comportamentos autodestrutivos.
Esse impacto também se manifesta de forma distinta entre os gêneros. Meninas são mais expostas a conteúdos que reforçam padrões de beleza inalcançáveis e a abordagens de predadores online, enquanto meninos tendem a ser direcionados a conteúdos de violência e grupos que promovem ideias misóginas e radicalizadas.
Além do ambiente digital, especialistas alertam para a fragilização dos vínculos familiares. Rotinas exaustivas, falta de tempo e dificuldade de comunicação contribuem para o distanciamento entre pais e filhos — um fator que se torna ainda mais crítico na adolescência, fase em que o suporte emocional é determinante.
Apesar do cenário preocupante, há sinais de reação. Medidas como a restrição do uso de celulares em escolas e iniciativas para regulamentar conteúdos digitais indicam um movimento de maior conscientização sobre os riscos. No âmbito familiar, a orientação é clara: observar sinais de alerta — como isolamento, alterações de sono, queda no desempenho escolar e falas de desesperança — e buscar uma abordagem baseada no diálogo, na escuta e no acolhimento.
A jovem que abre esta reportagem aponta justamente nesse caminho ao relembrar sua trajetória de recuperação. Segundo ela, o apoio da família e a possibilidade de falar sobre o que sentia foram decisivos para atravessar o período mais crítico. “Eu entendi que não precisava lidar com tudo sozinha”, afirma.
Em meio a uma geração cada vez mais conectada, a crise de saúde mental expõe um paradoxo: nunca houve tanta comunicação — e, ao mesmo tempo, tantos jovens se sentindo invisíveis. Em Mato Grosso, os números indicam que esse desafio já deixou de ser tendência — e passou a ser realidade.
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